segunda-feira, 12 de março de 2012

O SERVO E OS SERVOS SOFREDORES DE JAVÉ


                   
                                    
Frei Patrício Sciadini, Ocd.



A quaresma é tempo oportuno de conversão, onde podemos contemplar com calma sem vitimismo os nossos sofrimentos e os sofrimentos  de Jesus. Depois de ver na TV o êxodo em massa do povo líbio que, perseguido,  se vê obrigado a sair da própria  terra sem nada, carregando a roupa do corpo e no rosto os sinais de sofrimentos imensos,  os nossos sofrimentinhos, ou como diria Santa Teresa de Ávila, as nossas “dorzinhas”, são nada. Depois de ver a longa quaresma dolorosa dos cristãos perseguidos  no Egito  ou em outros países as nossas preocupações são leves como as folhas levadas pelo vento; ou depois de contemplar com os olhos esbugalhados e assustados o tsunami que devastou o Japão e o medo da fuga da energia nuclear as nossas cruzes  são nada.  E a pergunta que nos fazemos é a mesma que um dia  fizeram a Jesus: por que tudo isto, quem pecou ele o seus pais? A resposta de Jesus ecoa  em nós: nem ele ou eles  nem seus pais.
 A dor, para que assuma  um valor,  deve ser vista a luz de Cristo, Servo sofredor de Javé, à luz de tantos servos sofredores  que, sem merecer, como Jó, são tocados na carne viva pela dor e pelo silêncio de Deus. A quaresma coloca diante de nós o Servo sofredor de Javé, cantado pelo profeta Isaias nos dois  grandes cânticos Is 52-53 e retomado com acentos dramáticos  pelo profeta Jeremias e pelo Novo Testamento e por Paulo na sua Carta aos Filipenses.  No início  o  mesmo profeta Isaias nos diz que o Servo sofredor “foi considerado como culpado, sofre pelos seus pecados”(Is 53,4), na verdade  o grande culpado não era o servo sofredor, mas sim o povo  que se tinha afastado de Deus.
Todos os sofrimentos que pesam sobre a humanidade devemos saber lê-los como um forte chamado de Deus  para nos convertermos, voltarmos para Deus com generosidade. Nós não somos  menos pecadores que os japoneses  que morreram no tsunami e nem por aqueles que morrem nas enchentes do Brasil, da Índia ou da China. O  servos sofredor não tem cometido violência, sobre ele não há pecado, mas Deus, através  do seu sofrimento, salvará a humanidade (53,9). Diante dos nossos sofrimentos ou de alguém  que sofre preferimos  não olhar, nos afastar, ter medo  como o povo fez diante de Jesus sofredor,  fugiu, teve medo, mas ele do alto da cruz atrai de novo todos para ele através do laço do amor  que não pode morrer no coração humano.
O justo que sofre não grita, não se rebela, mas silencia  e com seu silêncio  anuncia novos tempos de vida(53,7). O servo  carrega  não só seus pecados, mas os pecados dos outros e se oferece como hóstia santa de libertação(53,11-12).  Contemplemos nesta quaresma  não só nossos pequenos sofrimentos, mas os grandes sofrimentos de Cristo Jesus e de tantas pessoas que sofrem, não porque pecaram, não  como punição, mas para que através dos sofrimentos delas  nós possamos aprender o caminho da conversão. O Servo sofredor Cristo dá sentido aos servos sofredores  que vivem  a dor com fé  e sabem que o amor de Deus nunca os abandona, mesmo quando  as situações parecem injustas  e sem saída. A dor tem sempre uma saída: o amor de Deus que em Jesus carrega conosco a nossa cruz.

Um comentário:

  1. Frei, li o texto e concordo que nunca olhamos para o sofrimento do irmão, sempre achamos que o nosso problema e maior do que todos e gritamos ao quatro cantos do mundo o quanto sofremos... somos egoistas. Nós temos que aprender olhar o mundo com os olhos de Jesus e amar com o coração de Jesus. A Paz de Cristo esteja com o senhor. Renata(Cairo / Egito).

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