domingo, 15 de abril de 2012

O ENCONTRO QUE NÃO PODE SER ESQUECIDO




Reflexão sobre a Páscoa por Frei Patrício Sciadini, ocd

ROMA, domingo, 15 de abril de 2012(ZENIT.org) -  *Frei Patrício Sciadini, ocd, apresenta aos leitores de ZENIT uma reflexão sobre a palavra Páscoa.
A palavra “Páscoa” evoca no coração de todos nós cristãos sentimentos de alegria, de fé, de amor pela Pessoa de Jesus que, tendo vencido a morte,  ressuscitou  dando-nos a todos o anúncio  que não somos mais escravos da morte e do pecado. A vida resplandece e floresce em quem crê no Senhor ressuscitado. Mas ao mesmo tempo esta palavra evoca  todo o caminho que o povo de Israel realiza  desde a sua libertação da escravidão do Egito nas noites estreladas no deserto, na experiência do frio e do calor, da fome. Evoca a tentação da idolatria de um lado e de outro o amor incansável de Deus  que através de Moises, caminha na frente do povo  rumo a terra prometida. Um caminho que  inicia com a libertação e que termina  somente no encontro definitivo com o novo cordeiro imolado, Cristo Jesus, em cujo sangue somos lavados e nossas vestes se fazem mais brancas do que a neve.
Páscoa, nova aliança sagrada da passagem da morte a vida. A grande páscoa de Cristo, resultado de tantas pequenas Páscoas que se realizam no caminho  de todo cristão. Páscoa, experiência de nossa fragilidade e da graça de Deus. Um encontro que  não pode ser esquecido porque é festa  a ser contada de pai para filho  por todas as gerações. Celebração em que o menor de todos, vendo todos os preparativos,  fica extasiado  e se aproxima do mais velho e pergunta  com alegria e brilho nos olhos: por que fazemos isto? E  inicia  o relato pascal,  a grande alegria  de contar aos que vêm depois de nós  que fomos amados por Deus e libertados de todos os nossos pecados.
Páscoa celebrada de pé,  com sandálias nos pés, com bastão na mão, comendo o cordeiro “sem mancha e defeito”, imolado,   pronto para retomar  o caminho, comido com erva amarga para que o povo nunca esqueça que a alegria maior é sempre unida a cruz e a dor. Uma dor de alegria e celebração, é verdade que os pés sangram e doem, que o coração está ferido,  mas é também verdade que  um espírito novo  está presente no coração de quem crê. Páscoa  nova, celebrada  não mais de pé, mas com pressa, por Jesus no cenáculo como despedida solene  dos seus discípulos, como entrada dolorosa na paixão, onde o mesmo Jesus  experimenta  o abandono de todos, a solidão, a dificuldade do caminho, as lágrimas amargas, a negação dolorosa. Mas com plena consciência de ter realizado o projeto do Pai até o fim no amor oblativo de si mesmo. Onde tudo é consagrado com o derramamento do seu sangue,  sangue vivo de amor e fecundante  de una nova vida.
Páscoa não compreendida, sofrida  no início do caminho da traição, mas que  na medida em que  a morte de cruz  se aproxima, aumenta a dor e incerteza, o medo  de que tudo está terminado. Mas o Cristo caminha de  cabeça erguida,  voluntariamente, até o calvário, para  se consumir  no amor ao Pai. O seu “tudo está consumado” não é desespero e nem  fracasso, mas sim realização de amor e “sim”  definitivo. Como é bela a páscoa contemplada como pequenas ou grandes mortes, pequenas ou grandes ressurreições. Páscoa é festa que se prepara a partir de dentro para fora,  num processo de conversão e de infinito amor. Experiência de pecado e de graça, somente os que  tem atravessado consciente e corajosamente o deserto da “quaresma”, nos quatro caminhos  indicados pelo Papa Bento XVI: oração, silêncio, partilha e jejum poderão experimentar a alegria da Páscoa. Sem esta vivencia  a Páscoa será um canto  vazio, um conector não marcante, uma passagem  que não transforma  a vida,  mas a torna ainda mais vazia.
A páscoa é uma festa que é marcada por uma palavra tão familiar a todos  nós e inclusive presente em todas a s línguas  de todos os que creem “aleluia”. É necessário que cante a mente, cante o coração e cante o corpo  que se acorda do seu sono e do seu silêncio para contemplar o Cristo ressuscitado. O canto do aleluia  nos faz perceber que   a nossa “HORA” chegou, embora não ainda plenamente,  a hora da vida, da alegria, da vitória sobre o mal. Páscoa no mundo tecnológico e do consumismo,  banalizada,  reduzida a “férias”, viagens, compras, ovos pascais e colombas pascais, chocolate diet e outras coisinhas  que servem para preencher  o vazio do coração sem fé.
Banalizar a Páscoa, instrumentalizá-la  para comércio é algo que fere não a sensibilidade dos cristãos, mas a fé.  A páscoa no hoje da nossa história é sermos  semeadores de esperança somente, que nasce da noite para o dia, outra numa semana e outra  num mês e outra  no fim da vida e outra ainda  daqui a 100 anos. Quero ser semeador da semente da esperança que nascerá daqui a 100 anos, assim não correrei o risco da vaidade. Crer na Páscoa é graça de Deus. Dizer feliz páscoa é dizer ao outro,  seja qual for, “você é feliz só se crê que Cristo  nasceu, sofreu, morreu e ressuscitou” e que ele lhe espera no céu para  você participar da sua glória. A páscoa, mais que uma celebração, uma memória, é uma Pessoa viva, Cristo, e você  que crê em Cristo.
Feliz páscoa!
* Frei Patrício Sciadini, ocd, religioso, Carmelita Descalço, escreveu mais de 60 livros, publicados no Brasil e no exterior, atualmente é o delegado geral no Egito.

domingo, 1 de abril de 2012

SOMOS OS BURRINHOS DE JESUS


Domingo de Ramos 1 de abril 2012


O Dia dos Ramos é festa, alegria. Jesus entra triunfante em Jerusalém aclamado pelo povo que, feliz, estende mantos por onde Ele passa e agita ramos de oliveira e palmeiras dizendo: “Bendito aquele que vem no nome do Senhor”. Mas como vem Jesus? Vem cavalgando um burro onde ainda ninguém tinha montado. O burro, na antiguidade, nunca tinha sido usado por nenhuma pessoa e trabalho, era destinado a pessoas importantes. Hoje Jesus necessita de nós como “burrinhos” para que possa penetrar nas nossas casas, nas famílias, no trabalho. Tudo o que fazemos não somos nós que o fazemos mas é Jesus através de nós. Somos “burrinhos de Jesus” mas o burro é importante porque carrega o Senhor. É uma lição de humildade, de simplicidade, que devemos aprender. Como é belo saber que Jesus necessita de nós para ser anunciado e amado e para que os outros o amem de verdade. As leituras deste domingo de ramos são bonitas. Nos falam de como nós devemos nos comportar na vida.
Na primeira leitura o profeta Isaias nos apresenta o servo sofredor de Javé que é uma figura que anuncia Cristo. Deve ter uma língua de anunciador, saber escutar e saber não desanimar nunca diante das dificuldades. Não devemos fechar os olhos mas sermos corajosos nestes últimos tempos: eu quero ser SEMEADOR DE ESPERANÇA, há semente que nasce da noite para o dia, outras que precisam de meses e outras anos.... eu quero semear sementes que dêem frutos daqui a 100 anos para que sejam árvores que não morrem.
NA segunda leitura, Paulo Apostolo nos oferece Cristo como modelo que não se envaidece por ser Filho de Deus mas assume os nossos sofrimentos, se faz um de nós, exceto no pecado, e se faz obediente e “escutador” de todos que ele socorre nos seus sofrimentos. O Evangelho que é a paixão, do Evangelho de Marcos tem como moldura no início e no fim, a presença de mulheres. É importante, a mulher é a nova educadora dos corações, a ela cabe a responsabilidade de mudar o mundo e torná-lo mais humano, mais fraterno. Mulher educa e ensina, não “no grito” como os homens mas no amor, na delicadeza. Quem não entende o gesto da mulher que perfuma os pés de Jesus, os avarentos de sempre, dizem: poderia se dar esse dinheiro aos pobres”; que fique claro Jesus nos ensina que a pobreza é um mal que deve ser estirpado, mas nos diz que o amor e a delicadeza é um bem. E no fim, nós temos as mulheres que observam onde será colocado o corpo de Jesus, elas amam. Quando se ama, se ama para sempre.
Celebremos esta semana santa olhando e vivendo na escuta dos que sofrem e aliviemos a dor dos pobres. Que você pretende fazer? Não faça da Páscoa uma festa que se reduz a presentes e ovos e colomba pascal. Disso falarei da próxima vez.
Que Deus te abençoe e a Virgem Maria, nossa Mãe, e Santa Teresinha façam chover uma chuva de rosas e de bênçãos aí sobre sua família e aqui no Egito sobre mim e todos os egipcianos.
Aos meus amigos do facebook, paz e benção.
Feliz Páscoa.

ABUNA BATRIK
01/04/12

sexta-feira, 30 de março de 2012


VIA SACRA INTERNETIANA
 

CARREGAR A NOSSA CRUZ E A DOS OUTROS

1. CARREGAR A NOSSA CRUZ
Paremos um pouco e nos perguntemos: qual é a nossa cruz? Cada um de nós tem algo que nos faz sofrer mais do que as outras coisas: será a nossa inveja, as vezes a nossa idade, nossos problemas que não conseguimos gestir bem, quem sabe o nosso relacionamento com o marido, com a esposa, com os filhos, com as pessoas vizinhas…pense na sua cruz e na dos outros. Jesus no Evangelho nos diz que aquele que não carrega a sua cruz não pode ser meu discípulo. Carreguemos com alegria a nossa cruz. Não tenham medo do sofrimento e nem da cruz; a cruz amada se torna leve, nos educa e nos faz bem. Tentemos nesta reflexão assumir a nossa cruz com amor e seremos felizes. A felicidade não está em escolher a nossa cruz mas em aceitar aquela que Deus nos dá. 

2. CARREGAR A CRUZ DOS OUTROS

Somos chamados a não viver sozinhos e a não nos fecharmos no pequeno mundo do nosso egoismo e pensar somente em nós. Ao nosso redor há tantas pessoas sem nome, que não conhecemos mas cada um carrega a sua cruz. Como ajudar os outros a carregar a cruz? Com um sorriso, uma palavra boa, com um gesto de delicadeza, não perdendo a paciência com ninguém mas sabendo amar a todos. Os gestos mais pequeninos são aqueles que mais tocam as pessoas; quantas oportunidades nós temos para sermos gentis, delicados, até no supermercado, não perdendo a paciência com que “furou a fila”, ou dando passagem ao carro que quer nos ultrapassar; dizendo “bom apetite” e sorrindo para a pessoa desconhecida que está comendo ao nosso lado. Todos temos uma cruz e `as vêzes necessitamos da ajuda dos outros para que a cruz seja mais leve. 
Veja alguém que sofre e silenciosamente o ajude. 
Deus ficará feliz com você.

Seja feliz e que Santa Teresinha envie uma chuva de rosas e bençãos. 

Abuna Batrik
Cairo, 30/03

domingo, 25 de março de 2012

Três são os caminhos para ver Jesus:


 



Daqui a 15 dias é Páscoa. Devemos nos preparar bem para sentir que Jesus ressuscita em nós, que vive em nós e que a nós é dada a missão de anunciá-lo a todos. Esta semana de silêncio sem homilia internetiana ( semana passada) sem dúvida, ajudou a refletir e pensar melhor.
O Evangelho de hoje é muito bonito. É Felipe que se aproxima de Jesus e lhe diz que os gregos querem vê-lo. O nosso maior desejo é ver Jesus. Nos perguntamos também como hoje podemos ver Jesus e comunicá-lo aos demais, qual é o caminho a seguir? Ninguém de nós pode viver sem Jesus, é Ele que orienta toda a nossa vida e que nos dá o sentido de todo o nosso agir. As pessoas hoje vivem muito dispersas, perderam o sentido da vida porque não tem Jesus no centro da própria existência. Todas as coisas podem faltar, todos os projetos podem fracassar menos a nossa fé. Queremos ver Jesus, três são os caminhos para ver Jesus:

1. A oração
Quando nós rezamos com os olhos da nossa fé, do nosso coração, vemos Jesus e falamos com ele, estamos na sua presença. A oração vemos Jesus e para Ele corremos. 

2. Vemos Jesus em cada irmão e irmã, seja qual for a cor, a raça, a classe social. Jesus habita em todos nós, ama todos nós e nós o amamos em todos. Quando fazemos o Vem o fazemos a Jesus que vive no outro. 

3. Vemos Jesus se somos capazes de vencer o nosso egoísmo e pecados, a nossa maldade e frieza com os outros. Jesus nos recorda que se o grão de trigo não morre não produz frutos. É preciso esquecer-se para que Deus cresça em nós, esquecer-se para que os outros sejam amados, não podemos ser felizes sozinhos mas juntos.

Feliz semana para mim e para você. Procuremos esta semana, seguir estes três caminhos para ver Jesus: rezar mais, amar os outros, e esquecer-se, não querer ser “eu” mas “nós”.
Feliz Páscoa, que Santa Teresinha derrame sobre nós uma chuva de rosas e de bênçãos.
Seja Feliz!
Abuna Batrik
Cairo, 25/03/12

quarta-feira, 21 de março de 2012

NÓS SOMOS O ALELUIA DE DEUS


 
Frei Patrício Sciadini, ocd.
Estamos  ainda no tempo pascal e se você notou em toda a liturgia se repete até cansar a palavra “Aleluia”. No final de todas as antífonas, de todos os Salmos responsoriais. Parece que o aleluia se torna a expressão mais bela da alegria da ressurreição. Sabemos que esta palavra hebraica não é de fácil tradução. São palavras tão encarnada na história da liturgia que em todas as línguas ela é sempre aleluia, como também “amém” e Sanctus”... Pode participar da missa em todas as línguas, estas palavras podem ser compreendidas por todos nós.
Aleluia significa “louvai o Senhor”, cantai a sua misericórdia. Deus de fato revela todo o seu poder no mistério da ressurreição e diante da alegria de Cristo ressuscitado não pode existir outra palavra senão “aleluia”, como grito de vitória sobre a morte e a maravilha  diante do que não se pode expressar  pela força humana. Há uma página magistral de Santo Agostinho sobre esta palavra e não quero que os meus sete leitores – me disseram que aumentaram – percam a riqueza deste grande tesouro da Igreja. Vai o texto:
 Agora, pois, irmãos, vos exortamos a louvar a Deus. é isto o que todos nós exprimimos mutuamente quando cantamos: Aleluia. Louvai o Senhor, dizemos nós uns aos outros. E assim todos põem em prática aquilo que se exortam mutuamente. Mas louvai-o com todas as vossas forças, isto é, louvai a Deus não só com a língua e a voz, mas também com a vossa consciência,, vossa vida, vossas ações.
Na verdade, louvamos a Deus agora que nos encontramos reunidos na igreja. Mas logo ao voltarmos para casa, parece que deixamos de louvar a Deus. não deixes de viver santamente e louvarás sempre a Deus. Deixas de louvá-lo quanto te afastas da justiça e do que lhe agrada. Mas, se nunca te desviares do bom caminho, ainda que tua língua se cale, tua vida clamará; e o ouvido de Deus estará perto do teu coração. Porque assim como nossos ouvidos escutam nossas palavras, assim os ouvidos de Deus escutam nossos pensamentos.

Que nós sejamos  no nosso dia a dia um aleluia de Deus. Longe de nós a tristeza, Jesus venceu a morte, podemos estar preocupados, até angustiados, mas nunca sem esperança. Quem acredita na páscoa da ressurreição sabe que a vitória é definitiva. Aleluia! 

segunda-feira, 12 de março de 2012

O SERVO E OS SERVOS SOFREDORES DE JAVÉ


                   
                                    
Frei Patrício Sciadini, Ocd.



A quaresma é tempo oportuno de conversão, onde podemos contemplar com calma sem vitimismo os nossos sofrimentos e os sofrimentos  de Jesus. Depois de ver na TV o êxodo em massa do povo líbio que, perseguido,  se vê obrigado a sair da própria  terra sem nada, carregando a roupa do corpo e no rosto os sinais de sofrimentos imensos,  os nossos sofrimentinhos, ou como diria Santa Teresa de Ávila, as nossas “dorzinhas”, são nada. Depois de ver a longa quaresma dolorosa dos cristãos perseguidos  no Egito  ou em outros países as nossas preocupações são leves como as folhas levadas pelo vento; ou depois de contemplar com os olhos esbugalhados e assustados o tsunami que devastou o Japão e o medo da fuga da energia nuclear as nossas cruzes  são nada.  E a pergunta que nos fazemos é a mesma que um dia  fizeram a Jesus: por que tudo isto, quem pecou ele o seus pais? A resposta de Jesus ecoa  em nós: nem ele ou eles  nem seus pais.
 A dor, para que assuma  um valor,  deve ser vista a luz de Cristo, Servo sofredor de Javé, à luz de tantos servos sofredores  que, sem merecer, como Jó, são tocados na carne viva pela dor e pelo silêncio de Deus. A quaresma coloca diante de nós o Servo sofredor de Javé, cantado pelo profeta Isaias nos dois  grandes cânticos Is 52-53 e retomado com acentos dramáticos  pelo profeta Jeremias e pelo Novo Testamento e por Paulo na sua Carta aos Filipenses.  No início  o  mesmo profeta Isaias nos diz que o Servo sofredor “foi considerado como culpado, sofre pelos seus pecados”(Is 53,4), na verdade  o grande culpado não era o servo sofredor, mas sim o povo  que se tinha afastado de Deus.
Todos os sofrimentos que pesam sobre a humanidade devemos saber lê-los como um forte chamado de Deus  para nos convertermos, voltarmos para Deus com generosidade. Nós não somos  menos pecadores que os japoneses  que morreram no tsunami e nem por aqueles que morrem nas enchentes do Brasil, da Índia ou da China. O  servos sofredor não tem cometido violência, sobre ele não há pecado, mas Deus, através  do seu sofrimento, salvará a humanidade (53,9). Diante dos nossos sofrimentos ou de alguém  que sofre preferimos  não olhar, nos afastar, ter medo  como o povo fez diante de Jesus sofredor,  fugiu, teve medo, mas ele do alto da cruz atrai de novo todos para ele através do laço do amor  que não pode morrer no coração humano.
O justo que sofre não grita, não se rebela, mas silencia  e com seu silêncio  anuncia novos tempos de vida(53,7). O servo  carrega  não só seus pecados, mas os pecados dos outros e se oferece como hóstia santa de libertação(53,11-12).  Contemplemos nesta quaresma  não só nossos pequenos sofrimentos, mas os grandes sofrimentos de Cristo Jesus e de tantas pessoas que sofrem, não porque pecaram, não  como punição, mas para que através dos sofrimentos delas  nós possamos aprender o caminho da conversão. O Servo sofredor Cristo dá sentido aos servos sofredores  que vivem  a dor com fé  e sabem que o amor de Deus nunca os abandona, mesmo quando  as situações parecem injustas  e sem saída. A dor tem sempre uma saída: o amor de Deus que em Jesus carrega conosco a nossa cruz.

sexta-feira, 9 de março de 2012

VIA SACRA



Jesus carrega, ama o mundo e doa a sua vida.
A Via Sacra é o caminho da cruz com Jesus. Uma devoção antiga na Igreja, sempre atual e viva. É o próprio Jesus que no Evangelho nos diz “quem quiser vir comigo, tome a sua cruz e me siga”. No Antigo Testamento não encontramos referência `a cruz. Jesus dá um novo sentido ao sofrimento e nos ensina que não somos chamados a choramingar pelos cantos e pedir compaixão dos outros mas sim carrregar a “cruz”.

Qual é a nossa cruz? São os nossos defeitos, nossas limitações, nossas dificuldades, nossos desentendimentos e pecados. Devemos carregá-los dia a dia. `As vezes nós preferirmos carregar a cruz dos outros, é sempre mais leve, não é a nossa. A cruz é como roupa, só quando for feita sob medida é boa e serve para nós. Assim a cruz é nossa somente nossa, devemos carregá-la com altivez e coragem.

Jesus carrega a sua cruz com amor e deu a sua vida. Também nós devemos saber dar a vida para que outros tenham vida. Quem vive só para sí mesmo corre o risco de ficar sozinho e abandonado por todos. Pare um pouco: quais são as coisas que o mais fazem sofrer? O que fazer? Se é possível mudar, mude. Mas se não é possível mudar, aceite a “sua cruz” e ofereça aos outros, sempre com um rosto de alegria e paz. .
Minha mãe Domenica que era analfabeta dizia: meu filho nós queremos carregar sempre a cruz dos outros porque é os outros e parecem mais leves, mas cada um sabe o quanto pesa a sua cruz e não sabe quanto é pesada a dos outros.
Que Jesus nos ensine a olhar ao nosso redor e sermos, esta semana, capazes de não murmurar e reclamar da nossa vida mas amá-la e transformá-la.

Abuna Batrik.


quarta-feira, 7 de março de 2012

QUE QUARESMA QUER O SENHOR?


Frei Patrício Sciadini, ocd.

Deus não quer a morte do pecador, isto é, do ser humano, mas que ele se converta e viva. O tema da Campanha da Fraternidade é o cântico à vida, à plenitude da vida que vem da paz, esta vida que queremos construir no nosso caminho nesta terra. A violência deve e pode ser vencida. Ela não vem de Deus, não é dom. Jesus nos recorda no evangelho: “resisti aos violentos!” Mas como resistir à violência? Com a paz. “A quem quiser tomar a tua túnica dê também o teu manto; se alguém quer te obrigar a fazer um km com ele faz dois”. Não a violência para que a paz e amor venham resplandecer sobre nós.
A quaresma deste ano nos  convida a parar a entrar na nossa casa interior que é o coração para ver como estamos vivendo a paz e como estamos vivendo a justiça, esta duas irmãs gêmeas que não podem caminhar separadas mas que andam sempre juntas. Vamos deixar de lado  por algum momento o grande mundo ao nosso redor e olhemos o mundinho dentro de nós. Quanta injustiça nós fazemos contra nós mesmos! Obrigamos o nosso corpo a trabalhar mais do que pode, a comer mais do que pode, a beber mais do necessário, a não dormir, a se meter em tantas encrencas que o mesmo corpo se rebela e se vê violentado. Obrigamos a nossa mente a criar coisas inúteis e caímos nas armadilhas de poucos espertalhões que, aproveitando-se  da nossa ingenuidade, nos quer vender gato por lebre. Obrigamos o nosso coração a odiar quando ele é feito para amar, a ter raiva quando ele é chamado para a paz. Obrigamos a nossa alma a se esvaziar de valores em que acreditamos só para  não  desagradar os falsos amigos.  Obrigamos a nós mesmos a fazer coisas  que vemos que estão erradas. E o ser humano que foi criado por Deus se rebela diante de tudo isto porque se sente agredido.
Que quaresma quer o Senhor? Uma quaresma de amor e paz, de purificação, de luta contra o pecado e o mal, venha de onde ele vier, para que dentro de nós haja paz e justiça. Que não façamos nada contra nós mesmos, contra os outros e contra Deus. Aí haverá a verdadeira paz. A  noite da humanidade poderá ser iluminada só pela luz de Cristo e os campos de batalhas  desaparecerão quando for levantada a bandeira da paz e do amor. Na justiça construa a paz dentro de você e na sua família, no ambiente do seu trabalho e os seus olhos verão que ao seu lado tem muita gente que quer a paz.

domingo, 4 de março de 2012

"EIS ME AQUI PARA SERVIR"



ESTAMOS no caminho da Quaresma, é necessário abrir o coração para escutar o que Deus quer de nós, colocá-lo em prática e vivê-lo no nosso dia a dia. A palavra chave deste domingo é “eis me aqui” para servir ao Senhor, fazer a Sua vontade, viver o amor. 

Na primeira leitura temos a figura de Abraão, já velho, que contempla seu unico filho Isaac e Deus lhe diz: “dai-me teu único filho”. Abraão não duvida, doa seu filho e diante da generosidade de Abraão, Deus faz com ele um pacto novo de amor e de benção. Deus não pede coisas que não nos custam, pede sempre algo que nos custa, “nosso único filho”, que `as vezes é o nosso tempo, as nossas férias, os nossos projetos, os nossos sonhos, o nosso dinheiro ou até sacrificar uma amizade que não nos ajuda nem nos faz bem. Ou perdoar alguém que nos feriu. 

Na segunda leitura o apóstolo Paulo diz o seu “eis me aqui”. Jesus que o chama e ele doa sempre com generosidade a sua vida. Ele sabe que mesmo que todos possam abandoná-lo Jesus nunca o abandona. Quem nos julgará? Quem nos abandonará? Nunca Jesus nos deixa sozinhos mas Ele diante do Pai suplica por nós. É necessário saber dizer o nosso “eis me aqui” para servir, para amar para sermos amor no meio das pessoas. 

NO Evangelho o Pai nos faz uma revelação e nos dá um mandamento novo: “Este é o meu Filho amado, escutai-o”. Escutar Jesus, mas como escutá-lo? Lendo o Evangelho e colocando-o em prática, mas Jesus nos fala também através de tantas pessoas que coloca no nosso caminho. O Papa Bento XVI na menssagem da Quaresma fala que nós vivemos uma “anestesia espiritual” que nos faz ser indiferentes diante dos sofrimentos dos outros. 

Boa semana para que nós saibamos escutar Jesus através das pessoas que nos falam. Sempre através das palavras existe uma mensagem. As palavras são como um tesouro, devemos descobri-lo nelas. Descobri o positivo e o negativo. 

Deus abençoe e Santa Teresinha mande uma chuva de rosas.
Escutemos, façamos um momento de silencio e pensemos: quem nos pediu ajuda e não demos respostas? Ajudemos!
Seja feliz!

sexta-feira, 2 de março de 2012

A MINHA VIA SACRA


Frei Patrício Sciadini, ocd.

            Nós vos adoramos e vos bendizemos, Senhor Jesus!
            Porque pela vossa santa Cruz remistes o mundo!

É uma pena que a gente só se lembra da Via Sacra na quaresma como piedoso exercício que nos é apresentado para viver com maior intensidade a Campanha da Fraternidade e nos aproximar do mistério da paixão do Senhor. Aliás, devemos parabenizar os organizadores da Campanha da Fraternidade que todos os anos nos oferece as 15 estações da Via Sacra com a temática própria  da Campanha. Este ano a Via Sacra fixa o seu olhar sobre o mistério da vida, a defesa da vida, e como nós devemos sair do nosso egoísmo e ir ao encontro dos demais.
Os títulos das estações permanecem os mesmos, são consagrados pelo tempo e pelo uso. A via Sacra é uma devoção que surgiu especialmente com o franciscano S. Leonardo de Porto Mauricio que foi espalhando esta devoção para reavivar no coração dos fiéis o arrependimento dos pecados e o amor a Cristo crucificado. Diríamos que foi uma “criatividade missionária evangelizadora” num tempo onde o povo, a maioria, era analfabeto, não podia ler a palavra de Deus, mas lembrava as estações que plasticamente falavam das últimas horas de Jesus  antes de ser crucificado.                     
As estações eram 14, a última meditava sobre a sepultura de Jesus e ponto final. Mas depois do Concilio Vaticano II se viu a necessidade de acrescentar a XV estação  para contemplar o mistério da ressurreição. A nossa fé não pára na morte, não é um beco sem saída, a morte não pode ser fim e nem desespero, é porta que se abre para a vida eterna. A Via Sacra nos projeta no mistério do silêncio do sepulcro mas já nos convida a permanecermos atentos à madrugada do primeiro dia da semana, quando Jesus  irá ressuscitar.
Todos nós temos a nossa Via Sacra a ser percorrida antes de nossa morte: os momentos de dor, de sofrimento, de fracasso que encontramos ao longo do nosso caminho. Quantas decepções e quantas dores somos chamados a suportar no nosso dia a dia. Para alguém a via Sacra é ver os filhos um a um sair de casa,  tomar o próprio rumo, é romper afetos  e viver sozinho  na solidão que dói dentro. Mas é necessário  passar tudo isto para que a vida continue. Para outro a via Sacra são estações que vive todas as vezes que uma pessoa querida morre. É um pedaço de nós que vai embora, sofremos mas sabemos que depois do silêncio da morte  nos reveremos de novo na luz de Cristo que não tem fim.
Para alguém a via sacra é a luta cotidiana para ter na mesa um pedaço de pão para matar fome, é dor de ver filhos gerados necessitados do necessário e não poder dar porque não tem. É ver quem a gente ama morar em barraco que cai aos pedaços  e não ter como ter um melhor.  A via sacra dos abandonados pelos amigos que nos deixam sozinhos porque tomamos atitudes que eles não compartilham conosco, atitudes de fidelidade ao evangelho de Jesus.
A via Sacra é o seu caminho da cruz, a cruz não pode ser trocada. Cada um deve carregar a própria, pequena ou grande que seja. É verdade que encontramos  um bom Cirineu que  nos ajuda a carregar por poucos metros a nossa cruz na solidariedade. Mas  também depois de  alguns passos a cruz nos é devolvida, é a nossa cruz.
A sua via Sacra é sua, carrega-a com amor, percorre-a com alegria e generosidade. A minha é minha, mas que eu seja Cirineu para você e você para mim. A solidariedade faz a cruz mais leve. Ajudemo-nos nas nossas vias sacras!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Só em Deus há segurança


Parece que vivemos o drama da insegurança por todos os lados: insegurança econômica com as ondas das crises que vão e vem e que nos obrigam a ter medo do nosso futuro; insegurança nas amizades e nos afetos que se tornam cada vez mais frágeis e sem estabilidade; insegurança religiosa quando vemos tantas coisas dentro da própria igreja e nos perguntamos “ mas será que isso é amar a Deus?”; insegurança na saúde, no trabalho, na vida…o que fazer diante de tudo isso? Como reagir? 
A palavra de Deus do primeiro domingo da Quaresma oferece uma resposta clara: só em Deus há segurança. É necessário entrar na Arca de Deus. Deus convidou Noé a entrar na Arca para se salvar do dilúvio que é símbolo de toda a catástrofe mas também Deus decide de não mais enviar dilúvios e faz com o ser humano uma Aliança que é o arco Iris que Ele coloca no Céu. 
Este sinal tão divino e belo que muitas vezes é usado como sinal de outras realidades. Sempre que você vir o arco Iris no Céu, lembre-se da Aliança de Deus conosco. O Batismo é a nossa arca da aliança. Pelo Batismo entramos no coração de Deus e somos chamados a viver com amor o empenho de amar uns aos outros, sendo cada um a segurança para o outro. 
Deus tem paciência conosco mas exige a nossa resposta para que nós possamos vencer todas as tentaçõs da vida. No Evangelho vemos Jesus tentado pelo diabo, pelo mal, pelo relativismo das coisas. 
Quais são as tentações que você sente mais forte na sua vida? Viver o egoismo pensando somente em você? Procurando frear suas angústias com compras desnecessárias? Tentando não olhar dentro de você e brigando “a torto e a direito” com todos? Sendo mal humorado, invejoso, ciumento? A coisa mais bonita é ser honesto consigo mesmo. Mas não esqueçamos que estamos de passagem e nada nem coisa alguma nos dará felicidade, só Deus. Ele é a nossa segurança. 
Nesta semana medite, veja os seus defeitos e não dos outros e tentemos nos corrigir. 
Que Santa Teresinha nos envie uma chuva de rosas e bençãos.
Seja feliz, você aí e eu aquí no Egito. Mas sempre unidos pela oração

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

QUARTA-FEIRA DE CINZAS


 
Cairo, 22/02/12


A Quaresma, “quarenta dias” , é o caminho que o cristão faz para se preparar para a Pasqua do Senhor. Como viver este período? O Papa nos recorda que é necessário vive-lo com quatro meios: oração, silêncio, atenção ao outro e jejum. O grande pecado de hoje é a “anestesia espiritual”, sermos indiferentes diante dos sofrimentos dos outros. Necessitamos dar atenção ao outro para faze-lo crescer e assim nós crescermos com ele. A Quaresma nos permite penetrar no nosso coração e ver que toda divisão não vem de Deus. Precisamos nos purificar dos nossos egoismos e olhar ao nosso redor. Não sermos indiferentes aos que sofrem mas amá-los e ajudá-los na medida do possível.
Encontre 10 minutos para estar em silêncio e veja o que você pode fazer para que as pessoas que vivem perto de você sofram menos. Quaresma não é olhar e cruzar os braços mas olhar e ter compaixão e fazer algo para o outro. Jejuar significa vencer o mal que está em nós e fazer pequenos sacrifícios para ajudar os outros.
Que Santa Teresinha envie a você uma chuva de rosas.

Boa Quaresma.
Seja feliz!
Abuna Batrik ( Frei Patricio Sciadini)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CINZA, JEJUM, ESMOLA, ORAÇÃO


                                  

O ciclo do ano nos oferece com fidelidade a oportunidade de celebrar os grandes momentos da vida e da liturgia. O início da quaresma é um Kairos de Deus onde se experimenta a necessidade de conversão. Olhamos dentro de nós e vemos que muitas mudanças são necessárias para podermos nos dizer discípulos e missionários de Jesus. Olhamos fora de nós e vemos que somos co-responsáveis por tantas estruturas injustas e pecaminosas que dominam e exploram os pobres. Não somente os grandes e os poderosos escravizam os pobres desfavorecidos mas mesmo os pobres se exploram entre si e se dominam para ver quem é que manda mais. Não se compreende o mistério do serviço de Cristo sem uma dimensão de fé. O caminho da quaresma é marcado desde sempre através de atos simbólicos que, bem compreendidos e assumidos, nos mostram a possibilidade de um caminho novo diante de nós.
CINZAS: A quarta-feira de cinzas marca na Igreja um caminho novo, termina o carnaval e começa o período de penitência, de austeridade, de purificação para podermos chegar à Páscoa do Senhor com coração novo. No passado este dia era de verdade o dia “divisório” entre o antes e o depois. Hoje em dia perdeu o sentido sagrado do tempo. Todo tempo é tempo para tudo. O carnaval continua e a penitência não chega. Mas ficou no imaginário religioso do povo que para estar bem com Deus é preciso ir à igreja e receber as “cinzas” na cabeça como sinal de pacificação. Com este rito muitos acham que estão “quites” com Deus e pronto. É só voltar à igreja no próximo ano para pagar a promessa. Claro que este ritualismo nada diz e a nada serve se não houver uma mudança interior. É uma forma de religiosidade popular que deve ser purificada. Cabe  aos pastores e agentes de pastoral fazer este trabalho de base.
JEJUM: jejum tem um sentido de autodomínio, de maturidade. Não para perder barriga e nem ser esbelto, não um jejum terapêutico e de estética. É experimentar a fome para saber como se sentem milhões de irmãos obrigados a jejuar por falta de comida, de solidariedade. Na experiência da fome percebemos a revolta de todo o nosso ser que reclama em nós. Por isso que Jesus foi tentado e ele sentiu no jejum a voz violenta do demônio que tentava distraí-lo do seu caminho de fidelidade ao Pai. Jejum  serve para que possamos perceber e conhecer a nós mesmos. Jejuar e ficar nervoso, revoltado e agressivo não serve a nada. Precisamos ser senhores de nós mesmos. Jejuar  da tendência do pecado e do mal que estão em nós, repartir com os outros o que temos e somos.
ESMOLA: A esmola é o sinal mais belo da solidariedade, da caridade. É gesto de plena gratuidade que deve ser vivido a partir de dentro, da generosidade do nosso coração. Esmola que não é compaixão antropológica mas sim ternura divina que vem do encontro nosso com Deus que nos envia a amá-lo presente nos mais necessitados e pobres. Dar esmola não é somente dar coisas mas antes de tudo dar amor: “não há maior amor do que dar a vida por aquele que se ama”. Esmola não é dar aos pobres tudo o que não serve ou que gera transtorno em casa, fazer limpeza e fazer do pobre o “saco do lixo”. É amar e dar o melhor que temos .
ORAÇÃO: fonte de toda a nossa vida espiritual, do nosso agir é a oração. Somente os que dialogam com Deus saberão como agir no dia a dia. É o Senhor que sussurra ao nosso coração como devemos comportar-nos no trabalho, na igreja, na família, na intimidade do nosso lar e do nosso coração. Sem a oração somos cegos que andam tateando por aí, mas que não encontram o caminho certo. Na quaresma que estamos começando procuremos ir pelo caminho das cinzas, do jejum, da esmola e da oração e a Páscoa será para nós encontro efetivo e gozoso com Cristo ressuscitado.

 Frei Patrício Sciadini, ocd.

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