sexta-feira, 2 de março de 2012

A MINHA VIA SACRA


Frei Patrício Sciadini, ocd.

            Nós vos adoramos e vos bendizemos, Senhor Jesus!
            Porque pela vossa santa Cruz remistes o mundo!

É uma pena que a gente só se lembra da Via Sacra na quaresma como piedoso exercício que nos é apresentado para viver com maior intensidade a Campanha da Fraternidade e nos aproximar do mistério da paixão do Senhor. Aliás, devemos parabenizar os organizadores da Campanha da Fraternidade que todos os anos nos oferece as 15 estações da Via Sacra com a temática própria  da Campanha. Este ano a Via Sacra fixa o seu olhar sobre o mistério da vida, a defesa da vida, e como nós devemos sair do nosso egoísmo e ir ao encontro dos demais.
Os títulos das estações permanecem os mesmos, são consagrados pelo tempo e pelo uso. A via Sacra é uma devoção que surgiu especialmente com o franciscano S. Leonardo de Porto Mauricio que foi espalhando esta devoção para reavivar no coração dos fiéis o arrependimento dos pecados e o amor a Cristo crucificado. Diríamos que foi uma “criatividade missionária evangelizadora” num tempo onde o povo, a maioria, era analfabeto, não podia ler a palavra de Deus, mas lembrava as estações que plasticamente falavam das últimas horas de Jesus  antes de ser crucificado.                     
As estações eram 14, a última meditava sobre a sepultura de Jesus e ponto final. Mas depois do Concilio Vaticano II se viu a necessidade de acrescentar a XV estação  para contemplar o mistério da ressurreição. A nossa fé não pára na morte, não é um beco sem saída, a morte não pode ser fim e nem desespero, é porta que se abre para a vida eterna. A Via Sacra nos projeta no mistério do silêncio do sepulcro mas já nos convida a permanecermos atentos à madrugada do primeiro dia da semana, quando Jesus  irá ressuscitar.
Todos nós temos a nossa Via Sacra a ser percorrida antes de nossa morte: os momentos de dor, de sofrimento, de fracasso que encontramos ao longo do nosso caminho. Quantas decepções e quantas dores somos chamados a suportar no nosso dia a dia. Para alguém a via Sacra é ver os filhos um a um sair de casa,  tomar o próprio rumo, é romper afetos  e viver sozinho  na solidão que dói dentro. Mas é necessário  passar tudo isto para que a vida continue. Para outro a via Sacra são estações que vive todas as vezes que uma pessoa querida morre. É um pedaço de nós que vai embora, sofremos mas sabemos que depois do silêncio da morte  nos reveremos de novo na luz de Cristo que não tem fim.
Para alguém a via sacra é a luta cotidiana para ter na mesa um pedaço de pão para matar fome, é dor de ver filhos gerados necessitados do necessário e não poder dar porque não tem. É ver quem a gente ama morar em barraco que cai aos pedaços  e não ter como ter um melhor.  A via sacra dos abandonados pelos amigos que nos deixam sozinhos porque tomamos atitudes que eles não compartilham conosco, atitudes de fidelidade ao evangelho de Jesus.
A via Sacra é o seu caminho da cruz, a cruz não pode ser trocada. Cada um deve carregar a própria, pequena ou grande que seja. É verdade que encontramos  um bom Cirineu que  nos ajuda a carregar por poucos metros a nossa cruz na solidariedade. Mas  também depois de  alguns passos a cruz nos é devolvida, é a nossa cruz.
A sua via Sacra é sua, carrega-a com amor, percorre-a com alegria e generosidade. A minha é minha, mas que eu seja Cirineu para você e você para mim. A solidariedade faz a cruz mais leve. Ajudemo-nos nas nossas vias sacras!

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