segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CINZA, JEJUM, ESMOLA, ORAÇÃO


                                  

O ciclo do ano nos oferece com fidelidade a oportunidade de celebrar os grandes momentos da vida e da liturgia. O início da quaresma é um Kairos de Deus onde se experimenta a necessidade de conversão. Olhamos dentro de nós e vemos que muitas mudanças são necessárias para podermos nos dizer discípulos e missionários de Jesus. Olhamos fora de nós e vemos que somos co-responsáveis por tantas estruturas injustas e pecaminosas que dominam e exploram os pobres. Não somente os grandes e os poderosos escravizam os pobres desfavorecidos mas mesmo os pobres se exploram entre si e se dominam para ver quem é que manda mais. Não se compreende o mistério do serviço de Cristo sem uma dimensão de fé. O caminho da quaresma é marcado desde sempre através de atos simbólicos que, bem compreendidos e assumidos, nos mostram a possibilidade de um caminho novo diante de nós.
CINZAS: A quarta-feira de cinzas marca na Igreja um caminho novo, termina o carnaval e começa o período de penitência, de austeridade, de purificação para podermos chegar à Páscoa do Senhor com coração novo. No passado este dia era de verdade o dia “divisório” entre o antes e o depois. Hoje em dia perdeu o sentido sagrado do tempo. Todo tempo é tempo para tudo. O carnaval continua e a penitência não chega. Mas ficou no imaginário religioso do povo que para estar bem com Deus é preciso ir à igreja e receber as “cinzas” na cabeça como sinal de pacificação. Com este rito muitos acham que estão “quites” com Deus e pronto. É só voltar à igreja no próximo ano para pagar a promessa. Claro que este ritualismo nada diz e a nada serve se não houver uma mudança interior. É uma forma de religiosidade popular que deve ser purificada. Cabe  aos pastores e agentes de pastoral fazer este trabalho de base.
JEJUM: jejum tem um sentido de autodomínio, de maturidade. Não para perder barriga e nem ser esbelto, não um jejum terapêutico e de estética. É experimentar a fome para saber como se sentem milhões de irmãos obrigados a jejuar por falta de comida, de solidariedade. Na experiência da fome percebemos a revolta de todo o nosso ser que reclama em nós. Por isso que Jesus foi tentado e ele sentiu no jejum a voz violenta do demônio que tentava distraí-lo do seu caminho de fidelidade ao Pai. Jejum  serve para que possamos perceber e conhecer a nós mesmos. Jejuar e ficar nervoso, revoltado e agressivo não serve a nada. Precisamos ser senhores de nós mesmos. Jejuar  da tendência do pecado e do mal que estão em nós, repartir com os outros o que temos e somos.
ESMOLA: A esmola é o sinal mais belo da solidariedade, da caridade. É gesto de plena gratuidade que deve ser vivido a partir de dentro, da generosidade do nosso coração. Esmola que não é compaixão antropológica mas sim ternura divina que vem do encontro nosso com Deus que nos envia a amá-lo presente nos mais necessitados e pobres. Dar esmola não é somente dar coisas mas antes de tudo dar amor: “não há maior amor do que dar a vida por aquele que se ama”. Esmola não é dar aos pobres tudo o que não serve ou que gera transtorno em casa, fazer limpeza e fazer do pobre o “saco do lixo”. É amar e dar o melhor que temos .
ORAÇÃO: fonte de toda a nossa vida espiritual, do nosso agir é a oração. Somente os que dialogam com Deus saberão como agir no dia a dia. É o Senhor que sussurra ao nosso coração como devemos comportar-nos no trabalho, na igreja, na família, na intimidade do nosso lar e do nosso coração. Sem a oração somos cegos que andam tateando por aí, mas que não encontram o caminho certo. Na quaresma que estamos começando procuremos ir pelo caminho das cinzas, do jejum, da esmola e da oração e a Páscoa será para nós encontro efetivo e gozoso com Cristo ressuscitado.

 Frei Patrício Sciadini, ocd.

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